Tempos de Montesquieu




30/04/2013 09h53 - postado por Luís Tôrres

Nunca se viu de forma tão clara uma disputa, quase juvenil não fosse seríssima, entre política e justiça como na recente arenga entre STF e Congresso Nacional. Apesar de nítida, não é rara. Queda de braço entre um e o outro poder é algo histórico e permanente, desde dos tempos de Montesquieu.
Com o poder de cassar congressistas e dar a última palavra sobre privilégios ou leis casuísticas, o Supremo sempre foi visto como a casa dos horrores pelos políticos. Já foram vários os rounds. O mais recente quando da discussão sobre o afastamento de políticos condenados no julgamento do Mensalão.
No Congresso, políticos sentem-se aquartelados. Nutrem há tempos um desejo por revolução. Com pouco ou quase nenhum poder sobre o Supremo, chegou a hora da rebelião definitiva. Como se fossem operários da Revolução Russa, querem minar as forças dos ministros, invadir-lhes o plenário e tomar o poder do Judiciário de assalto.
 A PEC 33, que prevê pronunciamento do Congresso Nacional sobre súmulas vinculantes e decretação de inconstitucionalidade de leis pelo STF, é um golpe sim. Um retrocesso. Na bandeira, teríamos a esperança apenas do progresso e esqueceríamos a ordem.
O Congresso Nacional do Brasil já demonstrou inúmeras vezes que não tem condições morais alguma de dar a última palavra sobre nada neste país. Primeiro por causa da quantidade. É um Casa de muitos nomes. Mesmo apanhando todos os dias da opinião pública, os maus se mistura entre os bons e vão passando sem se preocupar com os efeitos de seus atos.
Além da heterogeneidade ética de seus componentes, ou até por causa disso mesmo, o Congresso não consegue dar a última palavra nem mesmo nas leis que aprova, encaminhado tudo para consultas nos tribunais, vide Lei da Fidelidade Partidária e Lei do Ficha Limpa.
Preservando o princípio da autonomia dos poderes, o Brasil, o Estado Democrático de Direito e os brasileiros precisam sim de uma casa que dê a última palavra neste país. Alguém tem que apitar o final do jogo. Mesmo que seja o STF.
O que tem se aprimorar, neste sentido, são os instrumentos de moralização do Supremo. Primeiro acabando com o fim da indicação política para composição. Ministros devem chegar ao STF sem precisar passar pela caneta de presidente da República algum. Sem precisar ter influência em agremiações partidárias. Depois, estar desatrelado do Conselho Nacional de Justiça. O Presidente do Supremo não pode presidir o CNJ. Isso é o mesmo que colocar Maradona pra apitar Brasil versus Argentina.
E, por fim, estar sujeito, cada vez mais, ao olhar da sociedade, pra evitar que pressões, sejam elas de que natureza forem, forcem os julgadores a esquecerem o Direito para votar como se estivessem num concurso de calouros.
Quando o ministro Gilmar Mendes puxou pra si a matéria que ainda estava em discussão no Congresso sobre a criação de novos partidos, um abuso declarado, mostrou que o STF, que tem o direito à ultima palavra, ainda age como se merecesse, de fato, perdê-la.
No Brasil, a judicialização da política e a politização da Justiça devem ser desclassificadas simultaneamente.
Com a palavra e o poder, aquele que deveria ser o maior de todos os juízes: o cidadão. 
Luís Tôrres

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